terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fábula: A Haste da Cruz



Conta‑nos uma lenda que um homem a quem cumpria fazer grande jornada, deram a carregar pesada cruz, dizendo‑lhe que ela o levaria à salvação.

Tendo feito pequena parte do trajeto, vencido e desanimado pelo cansaço, deliberou ele cortar um pedaço da longa haste de sua carga.

Mais aligeirado pôs‑se de novo, a caminho, e jornadeou até o ponto em que a estrada subia por uma encosta longa e pedregosa. Ali sentiu que se lhe agradava o peso da cruz. Doíam‑lhe os ombros, tinha as pernas trôpegas, arfava e transudava.

Na irreflexão da impaciência, põe por terra o seu fardo e outra vez o mutila em sua haste.

Parte. Alcança o sopé do outeiro e se vê às margens de um rio sem ponte.

Só então observou que outros viajantes ali chegados levavam, também, pesadas cruzes de longas hastes e mais resistentes e tolerantes, conservaram‑se intactas.

Estes as estenderam de margem a margem e fazendo‑as de pontilhões, atingiram o lado oposto e lá se foram.

O que, porém, encurtara a haste de sua cruz viu, desde logo, que ela não lhe poderia prestar o mesmo auxílio. Tentando meter‑se pelo rio a dentro, desapareceu levado pelos redemoinhos da correnteza.

É límpida a lição da fábula. Todos os que vivemos a cortar, com golpes arbitrários, em nossos deveres e obrigações para com Deus, podemos levar, por algum tempo, vida mundanamente fácil mas sempre enganosa. O dia chegará em que seremos vítimas das mutilações feitas na haste da fossa cruz.




Lendas do Céu e da terra
Malba Tahan
Ed. Borgoi
São Paulo ‑ SP

As indulgências


Nem todos os católicos conhecem a fundo essa obra-prima dos cuidados maternais da Igreja para cada um de seus filhos.

 
            Jubilosa e encantada, Santa Teresa, a Grande, viu certo dia subir radiante para o Céu a alma de uma religiosa que acabara de falecer. E ficou surpresa com o fato, por tratar-se de uma freira de vida muito simples. Depois, em um de seus colóquios com Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele explicou-lhe o motivo desse privilégio: “Ela sempre teve grande confiança nas indulgências concedidas pela Igreja; e sempre se esforçou para ganhar o maior número possível delas”.
            Sempre se esforçou para ganhar o maior número possível de indulgências... por isto foi para o Céu, logo após a morte, sem passar pelo terrível fogo do Purgatório!
            Não é isto o que todos nós também queremos? Pois, então, imitemos o exemplo dessa boa religiosa.
 
 
A pena temporal
 
            Todos os homens, nesta vida terrena, cometem pecados. “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós”, diz o Apóstolo São João (1Jo 1,8). Portanto, todos têm penas a pagar, neste mundo ou após a morte.
            Quando o pecado é mortal, a pena devida é a condenação eterna ao fogo do inferno. A Confissão bem feita não só apaga a grave ofensa feita a Deus, mas também livra o pecador da pena eterna.
            Não o livra, porém da pena temporal. Ele deverá fazer uma expiação para purificar sua alma das sequelas do pecado, reparar pela glória de Deus ofendida, restaurar os danos causados à sociedade e à integridade da ordem universal.
            Dá-se a essa expiação o nome de pena temporal, porque ela é limitada por um tempo, ou seja, não é eterna. O pecador a cumprirá, ou voluntariamente nesta terra, por penitências e boas obras, ou pelos sofrimentos purificadores do Purgatório, fixados para cada alma segundo a justíssima e santíssima Sabedoria divina.
 
 
Perdão da pena temporal
 
            Aqui entra a importância das indulgências. Elas redimem, isto é, apagam a pena temporal devida pelos pecados mortais já perdoados na Confissão, e pelos pecados veniais. O homem que morre em estado de graça e tenha recebido uma indulgência plenária, vai diretamente para o Céu, sem passar pelo Purgatório.
            Elas constituem, pois, um dom de Deus, pelo qual Ele manifesta a plenitude de sua misericórdia. Basta estarmos em estado de graça, para a Igreja, nossa Mãe, confiar-nos esta chave do seu tesouro, chamada indulgência. Com ela, podemos, por assim dizer, “sacar” nos depósitos dos méritos infinitos de Jesus Cristo — aos quais se acrescem os da Santíssima Virgem e os de todos os Santos — para quitarmos não só nossas próprias dívidas para com Deus, como também as das almas do Purgatório.
            Há duas categorias de indulgências: a plenária redime a totalidade das penas temporais devidas por uma alma; a parcial redime apenas parte dessas penas.
            Qual o tamanho dessa parte? Depende da piedade de cada alma em questão. Eis o que diz o Manual das Indulgências, publicado pela CNBB: “O fiel que, ao menos com o coração contrito, faz uma obra enriquecida de indulgência parcial, com o auxílio da Igreja, alcança o perdão da pena temporal, no mesmo valor ao que ele próprio já ganha com sua ação”. Ou seja, em outros termos, quando alguém pratica um ato piedoso ou reza uma oração, Deus lhe concede a remissão de uma certa parte de suas penas temporais. Se esse ato ou essa oração é enriquecido pela Igreja de indulgência parcial, Deus dobra o valor da remissão concedida.
            Então, quanto mais fervor houver na oração, maior será a parte da pena redimida.
 
Cuidados maternais da Igreja
 
            Pondo à disposição dos fiéis o tesouro inexaurível das indulgências, a Santa Igreja tem por objetivo facilitar a todos a entrada no Reino dos Céus, para viverem eternamente felizes, no convívio com a Virgem Maria, os Anjos e Santos.
            E ela faz isso com zelo materno e sabedoria divina. Pois, por um lado, nos oferece inúmeros recursos para diminuir o prazo da pena temporal. Por outro lado, ela leva os fiéis a, para obter as indulgências, praticar atos de Fé, Esperança e Caridade, rezar, frequentar os Sacramentos, socorrer os carentes e necessitados de bens materiais e espirituais.
            Todas essas são obras pelas quais o homem avança na via da santificação pessoal e ajunta para si um tesouro no Céu. Assim, as indulgências são uma obra-prima dos cuidados maternais da Igreja para todos os seus filhos.
            Que cada um saiba tirar desse carinho de mãe todo o proveito para sua própria salvação e a de seus entes queridos!
            E também para nossos irmãos da Igreja Padecente. Qualquer indulgência pode ser aplicada em benefício das almas do Purgatório. E, ninguém pratica a virtude da gratidão como elas.
            Se rezamos ou fazemos sacrifícios por essas almas, depois elas intercedem por nós com especial empenho junto a Deus.
 
Condições para ganhar indulgências
 
            Para alguém ser capaz de lucrar qualquer indulgência — plenária ou parcial — é indispensável ser batizado, não estar excomungado, e encontrar-se em estado de graça.
            Precisa também ter intenção, ao menos genérica, de ganhá-la, e deve praticar o ato prescrito para tal.
            Mãe extremamente dadivosa, a Santa Igreja põe à disposição dos fiéis um grande número de atos enriquecidos de indulgência, tanto plenária quanto parcial. Abaixo, estão relacionados os mais comuns, aqueles mais fáceis de praticar no dia-a-dia de qualquer pessoa. O leitor que desejar a relação completa pode consultar o Manual das Indulgências, à venda nas livrarias católicas.
 
 
Plenária
 
            Pode-se ganhá-la apenas uma vez em cada dia; só em artigo de morte é possível lucrar mais uma no mesmo dia.
            Para receber uma indulgência plenária, é preciso, além das condições gerais mencionadas acima, confessar-se, comungar e rezar nas intenções do Sumo Pontífice.
            Uma confissão vale para várias indulgências, cada comunhão vale apenas para uma. Convém que a comunhão e a oração sejam no mesmo dia, mas podem ser em dias diferentes, tanto antes quanto depois da execução da obra prescrita.
            São as seguintes as “obras prescritas” mais comuns:
1 – Adoração ao Santíssimo Sacramento, de pelo menos meia hora.
2 – Leitura espiritual da Sagrada Escritura, pelo menos por meia hora.
3 – Exercício da Via-Sacra, quando feito piedosamente, percorrendo as 14 estações do caminho do Calvário legitimamente eretas.
4 – Recitação do Rosário de Nossa Senhora na igreja, no oratório, na família, na comunidade religiosa ou numa piedosa associação.
5 – Receber com piedade e devoção a bênção dada pelo Sumo Pontífice a Roma e ao mundo; é válida a bênção recebida por rádio ou televisão.
            Além desses, há mais de vinte outros atos enriquecidos com indulgência plenária, quando praticados em determinados dias ou circunstâncias. Por exemplo, dia de Finados, na primeira Missa de um sacerdote, etc.
 
 
Parcial
 
 
            Dentro das condições gerais descritas acima, o fiel lucrará indulgência parcial toda vez que, estando ao menos de coração contrito, rezar a oração ou executar a ação indulgenciada.
            Pode-se, portanto, lucrá-la um número indeterminado de vezes ao dia, dependendo apenas do empenho de cada fiel.
Ganha indulgência parcial:
1 – Quem, no cumprimento de seus deveres e na tolerância das aflições da vida, ergue o espírito a Deus com humilde confiança e faz uma piedosa invocação, mesmo que brevíssima e só em pensamento. Por exemplo: “Creio” — “Meu Deus!” — “Confio em Vós”. Qualquer um que esteja “no cumprimento do dever e na tolerância das aflições da vida” pode repetir uma invocação dessas mais de mil vezes num só dia!
2 – Quem, levado pelo espírito de fé, e com o coração misericordioso, faz um sacrifício no serviço dos irmãos que sofrem falta do necessário. Assim, dar alimento ou roupa a um pobre, visitar um doente, consolar os que sofrem, ensinar alguém a rezar, reconduzir às atividades paroquiais algum católico não-praticante — todos esses atos são exemplos de boa obra no serviço dos irmãos necessitados.
3 – Quem se abstém de coisa lícita e agradável, em espírito espontâneo de penitência. Podem ser atos simples, como deixar de comer uma fruta, etc.
4 – Há também um grande número de orações e atos enriquecidos com indulgência parcial: todas as ladainhas aprovadas pela autoridade competente, o Creio em Deus, o Magnificat, a Salve Rainha, o Lembrai-Vos, o Salmo 50 (Senhor, tem piedade), o sinal da cruz, a comunhão espiritual, etc.
            Lucra ainda indulgência parcial o fiel que usa objetos de piedade (rosário, crucifixo, escapulário, medalha) bentos por qualquer sacerdote ou diácono.
 

 

 

Severiano Antonio de Oliveira 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dia de Finados e o Purgatório


“Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para não suceder que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão. Em verdade te digo: dali não sairás antes de teres pago o último centavo” (Mt 5, 25-26). Jesus estava falando aos Apóstolos a respeito das punições que esperam os pecadores após a morte. Antes se referira ao fogo da geena — o Inferno —, uma prisão perpétua, eterna. Mas aqui Ele fala de um cárcere do qual se poderá sair, desde que seja pago o débito, até o último centavo.
            Essa prisão temporária, um estado de purificação para os que morrem cristãmente sem terem atingido a perfeição, é o Purgatório. Lugar misterioso, mas onde reina a esperança e os gemidos de dor são entremeados por cânticos de amor a Deus.
            Caro leitor, eis um assunto do qual se fala pouco, mas cujo conhecimento é vital para nós e para nossos entes queridos que já partiram desta vida.
            Convido-o a repassar diversos aspectos desse importante tema.
A festa de Finados
            No dia 2 de novembro, a sagrada Liturgia se lembra de modo especial dos fiéis defuntos. Depois de ter celebrado — no dia anterior, festa de Todos os Santos — os triunfos de seus filhos que já alcançaram a glória do Céu, a Igreja dirige seu maternal desvelo para aqueles que sofrem no Purgatório e clamam com o salmista: “Tirai-me desta prisão, para que possa agradecer ao vosso nome. Os justos virão rodear-me, quando me tiverdes feito este benefício”
(Sl 141, 8).
            A gênese dessa celebração está na famosa abadia de Cluny, quando seu quinto Abade, Santo Odilon, instituiu no calendário litúrgico cluniacense a “Festa dos Mortos”, dando especial oportunidade a seus monges de interceder pelos defuntos, ajudando-os a alcançarem a  bem-aventurança do Céu.
            A partir de Cluny, essa comemoração foi-se estendendo entre os fiéis até ser incluída no Calendário Litúrgico da Igreja, tornando-se uma devoção habitual, em todo o mundo católico. Talvez o leitor, como milhares de outros fiéis, tenha o costume de visitar o cemitério nesse dia, para recordar os familiares e amigos falecidos, e por eles orar. Muitos cristãos, porém, não prestam ouvidos aos apelos de seu coração, que os move a sentir saudades de seus entes queridos e a aliviá-los com uma prece. Talvez por falta de cultura religiosa, ou por falta de alguém que as incentive ou oriente, muitas pessoas nem veem a necessidade de rezar pelas almas dos falecidos. A inúmeras outras, a existência do Purgatório causa estranheza e antipatia.
            Seja como for, tanto por amor às almas que esperam ver-se livres de suas manchas para entrarem no Paraíso, quanto para estimular em nós a caridade para com esses irmãos necessitados, como também para nosso próprio proveito, vejamos o “porquê” e o “para quê” da existência do Purgatório.
 
Purificação necessária para entrar no Céu
 
            Sabemos que a Igreja Católica é una. É o que rezamos no Credo. Entretanto, os membros da Igreja não estão todos aqui, entre nós, mas em lugares diversos, como diz o Concílio Vaticano II. Alguns “peregrinam sobre a terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados” (Lumen Gentium, 49).
            Entre a terra e o Céu não é raro acontecer, no itinerário da alma fiel, um estágio intermediário de purificação. Segundo nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, por aí passam “os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão perfeitamente purificados”. Por isso “passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu” (nº 1030).
            Esse estado de purificação nada tem a ver com o castigo dos condenados ao Inferno, pois as almas do Purgatório têm a certeza de haver conquistado o Céu, mesmo que sua entrada ali tenha sido adiada por causa de seus resíduos de pecado.
            A primeira epístola aos Coríntios faz referência ao exame a que serão submetidos os cristãos, os quais, havendo recebido a Fé, devem continuar em si a obra de sua santificação. Cada um será examinado no respeitante ao grau de perfeição que atingiu: “Se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (1Cor 3, 12-15). “Ele será salvo”, diz o Apóstolo, excluindo o fogo do Inferno, no qual ninguém pode ser salvo, e se referindo ao fogo temporário do Purgatório.
            Comentando este e outros trechos da Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja nos fala do fogo destinado a limpar a alma, como explica São Gregório Magno em seus Diálogos: “Com relação a certas faltas leves, é necessário crer que, antes do Juízo, existe um fogo purificador, como afirma Aquele que é a Verdade, ao dizer que, se alguém pronunciou uma blasfêmia contra o Espírito Santo, essa pessoa não será perdoada nem neste século, nem no futuro (Mt 12, 31). Por essa frase, podemos entender que algumas faltas podem ser perdoadas neste século, mas outras no século futuro”.
 
Por que existe o Purgatório?
            Será Deus tão rigoroso a ponto de não tolerar nem mesmo a menor imperfeição, limpando-a com penas severas? Esta pergunta facilmente pode nos vir à mente.
            Em primeiro lugar, devemos nos lembrar desta verdade: depois de nossa morte, não seremos julgados segundo nossos próprios critérios, pois “o que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16, 7). Estaremos diante de um Juiz sumamente santo e perfeito, e em seu Reino “não entrará nada de profano” (Ap 21, 27). Com efeito, na presença de Deus, de sua Luz puríssima, a alma percebe em si mesma qualquer pequeno defeito, julgando-se, ela mesma, indigna de tal majestade e grandeza. Santa Catarina de Gênova, grande mística do século XV, deixou uma obra muito profunda sobre a realidade do Purgatório e do Inferno. Explica ela o seguinte: “Digo mais: no concernente a Deus, vejo que o Paraíso não tem portas e ali pode entrar quem quiser, pois Deus é todo misericórdia e seus braços estão sempre abertos para nos receber na glória; mas a divina Essência é tão pura — infinitamente mais pura do que podemos imaginar — que a alma, vendo nela mesma a menor das imperfeições, prefere atirar-se em mil infernos a aparecer suja na presença da divina Majestade. Sabendo então que o Purgatório está criado para a purificar, ele mesma se joga nele e encontra ali grande misericórdia: a destruição de suas faltas”.
            Essas manchas, a serem purificadas na outra vida, o que são?
            São os restos de apego exagerado às criaturas, ou seja, as imperfeições, e os pecados veniais, bem como a dívida temporal dos pecados mortais já perdoados no Sacramento da Reconciliação. Tudo isso diminui na alma o amor de Deus.
            Por causa dessas afeições desregradas se estabelece um estado de desordem em nosso interior, afastando-nos do Mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas.
            Essa é a causa pela qual, antes de permitir a uma alma subir até a glória celestial, “a justiça de Deus exige uma pena proporcional que restabeleça a ordem perturbada” (Suma Teológica, Supl. q. 71, a. 1)
            E a alma se sujeita ao castigo do Purgatório com alegria, em plena conformidade com a vontade do Senhor. Seu único desejo é ver-se limpa, para poder configurar-se com Cristo.
            As almas nesse estado “purificam-se”, diz São Francisco de Sales, “voluntariamente, amorosamente, porque assim Deus o quer” e “porque estão certas de sua salvação, com uma esperança inigualável”.
A pena do Purgatório
            As dores infligidas nesse local de purificação são “tão intensas que a menor pena do Purgatório ultrapassa a maior desta vida” (Suma Teológica, Supl., q. 71, a. 2). Mesmo assim, pondera São Francisco de Sales, “o Purgatório é um feliz estado, mais desejável que temível, pois as chamas nele existentes são chamas de amor”.
            Mas como entender que esse terrível sofrimento seja transpassado de amor?
            Na verdade, o maior tormento das almas do Purgatório — a “pena de dano” — é causado precisamente pelo amor. Essa pena consiste no adiamento da visão de Deus. Criado para amar e ser amado, o homem, ao abandonar esta terra, descobre a inefável beleza da Luz Divina e deseja correr para Ela com todas as suas forças, como o cervo sedento corre em direção à fonte das águas. Contudo, vendo em si o defeito do pecado, fica privado temporariamente daquela presença tão pura. Afastada, assim, d’Aquele que é a suprema e única felicidade, a alma sente um padecimento incalculável.
            Para nós, que ainda somos peregrinos neste vale de lágrimas, é difícil entender a imensidade dessa dor. Vivemos sem ver a Deus, embora n’Ele creiamos. Somos como cegos de nascimento, pois nunca vimos o Sol de Justiça, que é Deus; embora sintamos seu calor, não podemos fazer ideia de seu resplendor e grandeza.
            Entretanto, as almas benditas do Purgatório, logo após terem abandonado o corpo inerte, discerniram a inefável e puríssima beleza de Deus, mas não podem possuí-la imediatamente. Santa Catarina de Gênova usa uma expressiva metáfora para explicar essa dor: “Suponhamos que, no mundo inteiro, exista apenas um pão para matar a fome de todas as criaturas, e que basta olhar para esse pão para ficarem satisfeitas. Por sua natureza, o homem saudável tem o instinto de se alimentar. Imaginemos que ele seja capaz de se abster dos alimentos sem morrer, sem perder a força e a saúde, mas aumentando cada vez mais a fome. Ora, sabendo que só aquele pão pode saciá-lo e que não poderá matar sua fome enquanto não o alcançar, ele sofre sacrifícios insuportáveis, os quais serão tanto maiores quanto mais longe ele estiver do pão”.
            Apesar de tudo, as almas do Purgatório têm a certeza de que um dia poderão se saciar de modo pleno com esse Pão da Vida, que é Jesus, nosso amor. E por isso seu sofrimento é em tudo diferente do tormento dos condenados ao Inferno, os quais nunca poderão se aproximar da Mesa do Reino dos Céus. Esperança e desespero, eis a diferença fundamental entre esses dois lugares.
Disposição das almas no Purgatório
            Por isso, há nas almas do Purgatório um matiz de alegria no meio da dor. De forma brilhante, explica-o o Papa João Paulo II, na alocução de 3 de julho de 1991: “Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu, à purificação das últimas escórias, mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, pois sabe que pertence para sempre ao seu Deus”.
            E Santa Catarina de Gênova afirma: “Estou certa de que em nenhum outro lugar, excetuando o Céu, o espírito pode achar uma paz semelhante à das almas do Purgatório”.
            Isso ocorre porque a alma se fixa na disposição em que se encontra na hora da morte, ou seja, contra ou a favor de Deus, pois a liberdade humana termina com a morte. E tendo falecido na amizade de Deus, a alma do Purgatório se adapta com docilidade à sua santa vontade. Daí conservar a paz em meio a terríveis sofrimentos.
            Dos lábios do suavíssimo São Francisco de Sales ouvimos dizer que “entre o último suspiro e a eternidade, há um abismo de misericórdia”. Todos acham melhor fazer um esforço para evitá-lo. Outros, porém, sem se oporem aos anteriores, enfrentam o problema com uma ousada confiança no amor misericordioso do Senhor.
            Santa Teresa de Jesus, por exemplo, diz com veemência: “Esforcemo-nos, fazendo penitência nesta vida. Como será suave a morte de quem a tiver feito por todos os seus pecados, e assim não precisar ir para o Purgatório!” Já sua discípula, Santa Teresinha do Menino Jesus, formula de modo surpreendente sua atitude, se nele caísse: “Se eu for para o Purgatório, ficarei muito contente; farei como os três hebreus na fornalha, caminharei entre as chamas cantando o cântico do amor”.
            Uma atitude não contradiz a outra, mas ambas se completam, e, mesmo se tivermos de passar por esse lugar tão doloroso, tenhamos uma confiança sem limites na bondade divina.
            De qualquer modo, a Santa Igreja coloca maternalmente à nossa disposição as indulgências, para nos poupar das penas do Purgatório.
Ajudemos as almas benditas
            Não devemos pensar só no nosso destino pessoal, mas também nos perguntarmos como podemos ajudar aquelas almas que já estão à espera da libertação. Elas não podem fazer nada por si, pois estão impossibilitadas de alcançar méritos, e dependem de nós. Interceder por elas é uma belíssima e valiosa obra de misericórdia: de certo modo, não há ninguém mais carente do que elas.
            O costume de rezar pelas almas dos falecidos vem do Antigo Testamento. Também diversos Padres da Igreja promoveram essa prática, como São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nissa, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. No século XIII, o Concílio de Lyon ensinava: “As almas são beneficiadas pelos sufrágios dos fiéis vivos, quer dizer, o sacrifício da Missa, as orações, esmolas e outras obras de piedade, as quais, segundo as leis da Igreja, os fiéis estão acostumados a oferecer uns pelos outros”. Como é bela a devoção às benditas almas do Purgatório! É agradável a Deus e nos beneficia também, levando-nos à verdadeira dimensão cristã da existência, fazendo-nos viver em contato e comunhão com o sobrenatural, e com o futuro, no sentido mais pleno da palavra. Como essas pobres almas nos ficarão agradecidas ao receber nosso auxílio! Poderão ser nossos parentes, ou até mesmo nossos pais. Poderá ser alguém que não conhecemos, e que nos dará uma afetuosa acolhida na eternidade. No Céu, e enquanto ainda estiverem no Purgatório, elas rezarão por nós, com todo o empenho, pois Deus lhes dá essa possibilidade.
            Rezemos por essas almas necessitadas, ofereçamos-lhes Missas, dêmos esmolas por elas, façamos sacrifícios e consigamos que outras pessoas se tornem devotas fervorosas das almas benditas. Sabe quem será o maior beneficiado? Nós mesmos!
 Fontes documentais sobre o Purgatório
            A doutrina católica sobre o Purgatório foi definida em especial no Concílio de Florença (1438-1445) e no de Trento (1545-1563), com base em textos da Escritura (2Mc 12,42-46; 1Cor 3,13-15) e da Tradição, conforme nos ensina o Catecismo da Igreja Católica (n.1030-1031).
            A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, aborda a questão em seu número 50: “Orações pelos defuntos, culto dos santos”.
            Em sua solene profissão de fé intitulada Credo do Povo de Deus, feita em 30 de junho de 1968, o Papa Paulo VI inclui as almas “que se devem ainda purificar no fogo do Purgatório” (n. 28).
            O Papa João Paulo II refere- se ao Purgatório em vários documentos:
— Mensagem ao Cardeal Penitenciário-Mor de Roma, 20/3/98;
 
— Carta ao Bispo de Autum, Châlon e Mâcon, Abade de Cluny, 2/6/98;
— Audiência Geral de 22/7/98;
— Audiência Geral de 4/8/99;
— Mensagem à Superiora Geral do Instituto das Irmãs Mínimas de Nossa Senhora do Sufrágio, 2/9/2002. 
Padre Carlos Werner Benjumea EP.