Aprendamos com a história de uma santo pouco conhecido, mas que muito tem a nos ensinar: São Ferreol
Entre os lavradores e
viajantes da Catalunha, o nome de Ferreol era muito temido. Nas noites de
tempestade quando a água bate com fúria nas rochas, o bandido Ferreol e seus
companheiros aguardavam em seus postos para assaltar qualquer infeliz e roubar‑lhe
a bolsa e quiçá deixá‑lo estendido sem vida em um matagal. Por todas as partes
se narravam as novas do bando que levava o terror a todos os que tinham que
passar pelos montes e bosques, que eram os lugares preferidos de Ferreol e seus
companheiros.
Um dia, ao por do sol, em que
o crepúsculo enchia de sombras as proximidades das montanhas, um frade
caminhava a passos largos. Ia rezando com devoção suas orações. Assim não
percebeu a aparição de dois homens no meio do caminho. Estes pararam o bom
religioso, dizendo‑lhe:
‑ Ei irmão, passe‑nos a bolsa!
O frade, surpreendido, lhes
respondeu, dizendo que não levava nada consigo. Bandidos como eram, o
conduziram então, com os olhos vendados à cova onde o bando estava reunido.
Ferreol, sentado ao junto ao fogo, entretinha‑se em afiar com grande cuidado
sua faca .
Os bandidos tiveram grande
surpresa com a chegada de seus companheiros e do frade. Ferreol, com o intento
de zombar do padre, lhe disse:
‑ Há muito que desejo me
confessar, e agora vejo uma oportunidade. O senhor vai me confessar, reverendo
padre, mas tenha em conta que espero vossa absolvição. Se não for assim, vós
podereis encomendar‑vos a todos os santos, pois não saireis vivo desta caverna.
O frade, tranqüilamente, lhe
disse que estava disposto a ouvi‑lo em confissão.
‑ Mas sou Ferreol, o bandido ‑
disse o chefe. Não tendes ouvido falar de mim?
‑ Não importa, respondeu o
frade. Vem aqui comigo e eu te ouvirei a confissão.
Se retiraram a um canto da
caverna, e o frade disse a Ferreol:
‑ Dou‑te a seguinte
penitência: antes de qualquer assalto, repita isto e pense bem nisto: não
queira para os outros o que não queres para ti. E isto te bastará.
Ferreol soltando uma estrondosa
gargalhada, disse:
‑ Se essa é a penitência, não
é demasiado dura. Agora saia daqui depressa, antes que eu me arrependa e te
mate.
O frade saiu. Ferreol
continuou afiando sua faca. Os seus companheiros continuaram bebendo, jogando
ou roncando.
No entanto, as palavras do
frade, não haviam caído em terreno pedregoso. Alguns dias depois, dispunha‑se
Ferreol a dar assalto a uma carroça que ia a uma cidade vizinha onde se
celebrava uma festa. Colocaram‑se os bandidos como de costume, alguns no alto
de um monte para avisar a chegada da gente, e os demais, ocultos na floresta,
escondidos entre as ramas de frondosas árvores. Até que o assobio de um
sentinela os avisou, e então se esconderam. Pelo caminho, puxando um burrinho,
vinha um homem com sua esposa e um menino nos braços.
‑ Boa presa, pensaram todos.
Já estavam preparados para
assaltar ao sinal de Ferreol, quando viram com surpresa que o sinal não fora
dado. Passou o homem com seus companheiros e desapareceu atrás de uma curva do
caminho. Tudo ficou em paz, e os bandidos se foram lentamente incorporando, se
aproximando de Ferreol e lhe perguntaram a causa de não haver ordenado o
ataque. O chefe se mostrava pensativo, não contestou as reclamações de seus
subordinados, mas com receio disse:
‑ Não sei... não me pareceu
conveniente. Agora voltemos à caverna.
Desde aquele dia Ferreol
sempre agia assim. Preparava‑se o assalto, mas, na última hora, não o
executava. E, já os bandidos murmuravam, acreditando que seu capitão havia
enlouquecido ou sido atacado por algum mal súbito, pois não mais falava com
eles e passava largas horas melancolicamente passeando pelos bosques ou na
cova, isolado da algazarra dos demais. Até que um dia eles resolveram roubar
uma mansão e Ferreol negou‑se a ir.
‑ Pensem se gostariam que
fizessem isso com vocês. O que não queremos para nós não devemos querê‑lo para
os outros.
Os bandidos ficaram
estupefactos. Logo, um coro de brutais gargalhadas estalou.
![]() |
Ermida de São Ferreol, Catalunha |
‑ Ah, Ferreol, sois São
Ferreol! vos fizestes frade e santo! E passando dos risos para as ameaças, e
destas para os fatos, o golpearam e por fim o mataram. Levaram o cadáver com
eles à mansão que iriam assaltar e o esconderam na adega.
Desta maneira, Ferreol, que
havia meditado sobre as palavras daquele frade, cumpriu a penitência de que tão
impiamente zombara.
Passou o tempo e o dono da
mansão que os bandidos haviam roubado, notou com surpresa ao tirar o vinho de
um certo tonel, que esse havia melhorado em qualidade de uma maneira notável
estando com um sabor agradabilíssimo. E além disso o tonel estava sempre cheio.
Sem ter uma grande explicação, removeu um dia o tonel tirando todo o vinho.
Grande foi a surpresa ao encontrarem o corpo de Ferreol, que estava ainda
fresco e com as feridas ainda sangrando, como se acabasse de morrer.
Compreenderam que um grande
milagre havia ocorrido e desde então São Ferreol recebeu culto e devoção.
Antologia de Leyendas de la
Literatura Univeral
V. Garcia de Diego
Editorial Labor S.A.
Madrid ‑ Espanha
1ra. edição ‑ 1935
pp.154,155