O início de
um ano é sempre acompanhado de esperanças e apreensões. “O que virá pela frente?”,
“Que ‘batalhas’ teremos que enfrentar?”, “ Quantos pontos temos que nos corrigir...”. E
muitas vezes a ansiedade toma lugar à virtude da confiança na Providência.
O cristão
tem na Santa Igreja a bússola que o conduz ao caminho certo, e o apoio
incalculável dos Sacramentos. Ainda que nossas dificuldades e faltas sejam
numerosas, a esperança e confiança na misericórdia Divina devem povoar nossos
corações com o ânimo de seguir em frente, até o dia mil vezes feliz em que nos
encontraremos face-a-face com Deus e já não pecaremos mais.
Há muitos
anos um ilustre conferencista brasileiro narrou o fato abaixo, lido por ele num
livro de escritor francês. Transmitimo-la aos leitores, tendo em vista seu
valioso conteúdo moral.
Como
turista inteligente, caminhava calmamente esse escritor pelas ruas de Roma, a “Cidade Eterna”, sem plano pré-estabelecido, “sentindo” os
lugares densos em cultura e tradições, analisando os grandiosos monumentos, as
pitorescas ruas e praças.
Andando, por assim dizer, sem
rumo, aconteceu-lhe de passar pelos fundos de uma das inúmeras igrejas da
cidade pontifícia e de notar por mero acaso, gravada na pedra, uma inscrição
que lhe despertou a curiosidade. “Será o memorial do arquiteto que construiu o
edifício sagrado? Ou será obra de algum vândalo?” - pensou ele.
Aproximou-se e, logo de início,
notou o detalhe da letra quase artisticamente desenhada. Leu a primeira frase: “”Hoje, 25 de agosto, pequei. Mas, graças a Deus, já me confessei.”
Emocionado, constatou o escritor que a inscrição era o “diário espiritua”” de um
pecador arrependido e decidido a marcar na pedra, para todos os séculos, seu
testemunho de luta, humildade e gratidão.
Logo a seguir, igual gemido de
alma: “Hoje, 26 de agosto, tornei a pecar. Mas
já me confessei, graças a Deus.”
Sucediam-se assim as frases,
sempre iguais na substância, com ligeiras variações na forma. Mas com um
detalhe importante: à medida que passava o tempo, ia ficando maior o período
entre uma queda e outra. De quase quotidianas no princípio, passaram a ser
semanais, mensais. Depois, vários meses sem pecar.
Por fim, nosso turista-escritor
chegou à última frase, um verdadeiro brado de vitória e gratidão: ”Hoje, 13 de março, faz um ano que não peco. Deus seja louvado!””
Comovido até as lágrimas, teve
ele vontade de ajoelhar- se e oscular aquela relíquia de uma alma que, em vez
de desanimar à vista de sua fraqueza, confiou na misericórdia de Deus,
perseverou na oração, pela qual obteve as graças superabundantes para lutar com
êxito até alcançar vitória completa.
Bendito, certamente, é o sangue
dos mártires derramado no Coliseu e em tantos outros lugares da Terra. Benditas
também as confissões gravadas nesse “diário” de
pedra, as quais nos trazem vivamente à memória o livro “Confissões”, do grande
Doutor da Igreja, Santo Agostinho.